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Artigos › 01/11/2018

Eu verei a Deus

Os cristãos mantém uma antiga tradição de visitar os túmulos dos falecidos e rezar por eles. No Dia de Finados a saudade dos que já partiram se mistura com muitas interrogações. Talvez surjam mais perguntas do que respostas. O cuidado com o túmulo que guarda os restos mortais, as flores aí depositadas e as orações que são feitas por eles são sinais da comunhão que nem a morte consegue romper. O amor e o bem permanecem para além da morte.

Porém, o Dia de Finados é a ocasião em que mais claramente expressamos nosso desejo e convicção que brotam de nossa esperança na vida eterna. Já no Antigo Testamento, o profeta Jó, no final das provações que passou disse: “Eu sei que meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus” (Jo 19,25-26). Mas os homens e mulheres do nosso tempo ainda desejam e esperam a vida eterna, a vida plena em Deus? Para muitos a vida terrena, mesmo entre pessoas de fé cristã, tornou-se o único horizonte possível. A tirania de uma felicidade que não suporta a provação e o sofrimento, baseada na lógica do consumo, acabou por idolatrar o tempo presente. O agora, embora fugaz, tornou-se definitivo. Ainda há espaço para a inquietude humana de plenitude que vai além da própria morte? Por isso, a questão da morte, enigma mais importante da vida humana (cf. GS 18), é camuflada e pouco tematizada.

Na liturgia eucarística, no início da grande prece, o que preside reza: “Corações ao alto” e a assembleia responde “O nosso coração está em Deus”. Na liturgia expressamos que aqui não vivemos a realidade definitiva de nossa vida. A bússola que orienta e dá sentido a nossa vida se volta para o alto, para Deus, está em Deus. Jesus deu um sentido novo a toda nossa existência e também ao morrer. Ele próprio compreendeu o fim da passagem neste mundo como “passagem deste mundo para o Pai” (Jo 13,1).

Assim, nossa relação com os defuntos é compreendida pela nossa comunhão em Cristo. Na comunhão dos santos, que se origina pelo fato de estarmos unidos pelo nosso batismo em Cristo, aqueles que já partiram formam conosco uma única família. Oferecer orações e sufrágios pelos falecidos é atestada pela Escritura como uma obra salutar (cf. 2Mac 12,46). Nosso sufrágio é uma súplica insistente a Deus para que tenha misericórdia dos fiéis defuntos, os purifique e os acolha consigo.

Enfim, no Dia de Finados, ao visitarmos os cemitérios e ao rezarmos pelos falecidos, reavivamos a consciência da nossa finitude terrena e a certeza que o dom da vida se torna eterno “em Deus”, donde viemos, para uma única peregrinação neste mundo, e para quem retornamos. O cristão tem uma esperança segura, como discípulo de Jesus Cristo, pois “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20). Não é salutar especular demasiadamente e buscar muitas explicações, mas reafirmar, com fé e esperança, nossa confiança na bondade e paternidade divinas que nos permite afirmar, com certeza: “verei a Deus” (Jo 19,26).

Por Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta, via CNBB

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