Destaques, Espaço valdocco › 27/07/2015

Espaço Valdocco 41 – Um seminarista exemplar

O jeito sempre alegre de ser de João, sua maneira agradável de tratar as pessoas e a disponibilidade de prestar ajudar seja a quem for que precisasse fizeram com que ganhasse rapidamente o afeto de todos os seus colegas seminaristas. Esta sua maneira de ser era sobretudo resultado de uma felicidade muito grande que sentia na sua nova vida.

Estava sempre disposto a varrer, a transportar móveis de um quarto para o outro, a organizar as salas, fazer barretes (uma espécie de chapéu usado na época pelos clérigos), a barbear, cortar cabelo e a costurar batinas e sapatos. Era um humilde servidor de todos. Também sabia cuidar muito bem daqueles que estavam doentes e mais necessitados de ajuda médica.

Igualmente nas dúvidas e dificuldades todos os buscavam como conselheiro e amigo. Com os que tinham problemas com os estudos, possuía uma caridade sem limites. Quando precisavam fazer provas e se encontravam desesperados por conta da quantidade de matéria, João costumava fazer resumos dos conteúdos para passar a estes colegas. Emprestava generosamente seus livros a quem lhe pedia. Preparava frequentemente sermões para os seus colegas que eram convidados pelos párocos, nos tempos de férias, e tinham dificuldades para escrevê-los ou não se sentiam capazes para compô-los. Esse foi um costume que Dom Bosco manteve também como padre: em Turim, emprestava para quem pedia os seus cadernos e sermões para que pudessem se servir. Também por esse motivo, infelizmente muitos escritos de Dom Bosco não chegaram até nós.

No recreio, divertia seus colegas com piadas leves e agradáveis. Às vezes, propunha a explicação de certas frases latinas, que geralmente continham algum pensamento importante. Outras vezes, manipulava uma varinha que apoiava somente no dedo polegar e a jogava em todos os sentidos, fazia rodar, saltar e rapidamente voltar imóvel sobre o dedo. De vez em quando, nos primeiros anos, porque os colegas pediam, fazia algum número de mágica.

Os antigos amigos da escola de Chieri não o esqueceram. Às quintas-feiras, a portaria do seminário se enchia de meninos que iam levar os seus cadernos para que João os examinasse. Ele, muito contente, corrigia, anotava os erros, explicava as frases e repassava as lições que haviam escutado em aula. Mas nunca os deixava ir sem citar um bom pensamento.

Mas João sempre esperava com mais expectativa a visita de seu amigo Luís Comollo, que ainda tinha mais um ano de estudos na escola de Chieri, no curso de Retórica. Não era difícil querer bem a Comollo. Rapaz de grande inteligência, de caráter suave, cumpridor exato dos deveres, constante na prática do bem e muito orante.

Nas “Memórias do Oratório de São Francisco de Sales” resume assim o fim do primeiro ano do seminário: “fui muito feliz no seminário e sempre gozei da estima dos meus colegas e de todos os meus superiores. No exame semestral costuma-se dar um prêmio de 60 francos em cada curso a quem obtiver as melhores notas no estudo e no comportamento. Deus me abençoou muito, pois nos seis anos que passei no seminário fui sempre distinguido com esse prêmio”.

Nas suas primeiras férias do seminário, fez uma visita à casa da família Moglia – família amiga que o havia acolhido quando, devido aos conflitos com o meio-irmão Antonio, saiu de casa, aos 13 anos. A visita de João foi recebida com muita alegria e comoção nesta casa.

Depois João dirigiu-se à casa de sua mãe, mas esteve ali por pouco tempo, pelo motivo que ele mesmo conta: “Interessava-me muito o estudo do grego; havia aprendido os primeiros elementos no curso clássico, aprendi a gramática e fiz algumas traduções com a ajuda do dicionário. Serviu-me muito uma oportuna ocasião. No ano de 1836 a cólera era uma ameaça; só em Nápoles havia causado a morte de mais de cinco mil pessoas e já chegava à Ligúria. Os jesuítas de Turim anteciparam a saída dos internos do seu colégio, o que iria requerer duplicar o horário de aulas para cumprir o planejamento. Consultaram o Pe. Cafasso e ele me indicou para as aulas de grego. Isto me incentivou a estudar seriamente a língua, para estar em condição de poder ensiná-la. Mais ainda, pedi muita ajuda a um sacerdote jesuíta, chamado Bini, que era profundo conhecer do grego. Em apenas quatro meses me fez traduzir quase todo o Novo Testamento, os primeiros livros de Homero e outras obras clássicas. Aquele digno sacerdote, admirando minha boa vontade, seguiu ajudando-me: durante quatro anos lia a cada semana uma composição grega o alguma tradução que eu o enviava e ele corrigia pontualmente e me devolvia com as observações. Deste modo cheguei a traduzir o grego quase como se tratasse de latim”. E, de fato, testemunhas contam que em 1886, recitava capítulos inteiros de São Paulo em grego e em latim, posto que sabia de memória, em ambas as línguas, o Novo Testamento.

João deu aulas neste colégio dos jesuítas por quase três meses, encarregando-se também de assistir o dormitório durante todas aquelas férias. Teve ocasião de conhecer a vários jovens de famílias distintas que sempre lhe guardaram uma grande estima e cuja cooperação soube aproveitar com frequência quando teve necessidade. Também pôde conhecer, graças à sua piedade e o seu zelo pela salvação das almas, os perigos que molestam esta classe de jovens, com os quais tinha contato pela primeira vez, e a dificuldade de adquirir a influência necessária sobre eles para lhes fazer o bem. Convenceu-se que não era chamado a se ocupar dos jovens filhos de famílias ricas. De fato, anos mais tarde, em 5 de abril de 1864, Dom Bosco falava a um salesiano que lhe propunha muitos projetos, entre os quais abrir um colégio para os filhos da nobreza: “Não, isso nunca. Enquanto eu estiver vivo e enquanto dependa de mim, isso nunca. Isso seria nossa ruína, como foi para várias ordens religiosas que tinham por missão principal a educação da juventude pobre e logo os abandonaram para se dedicarem aos nobres.”

Entretanto, mais tarde Dom Bosco precisou aceitar o colégio de Valsálice, diante dos insistentes pedidos da Comissão Diretora, do mandato do Arcebispo de Turim – Dom Gastaldi – e para defender a honra do clero de Turim, submetendo-se, desde cedo, a dolorosos sacrifícios, que só Deus certamente soube recompensar.

TEXTO: Pe. Glauco Félix Teixeira Landim, SDB
e-mail: glauco.bsp@salesianos.com.br – Facebook: www.facebook.com/glaucosdb

ADAPTAÇÃO E LOCUÇÃO: Domingos Sávio

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